29.3.08

Ausência - Vinicius de Moraes



Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Ouvindo: Sonata ao Luar - Beethoven

16.3.08

Traumas - Roberto Carlos / Erasmo Carlos



Meu pai um dia me falou
Pra que eu nunca mentisse

Mas ele também se esqueceu
De me dizer a verdade

Da realidade do mundo
Que eu ia saber

Dos traumas que a gente só sente
Depois de crescer

Falou dos anjos que eu conheci
No delírio da febre que ardia

Do meu pequeno corpo que sofria
Sem nada entender

Minha mulher em certa noite
Ao ver meu sono estremecido

Falou que os pesadelos são
Algum problema adormecido

Durante o dia a gente tenta
Com sorrisos disfarçar

Alguma coisa que na alma
Conseguimos sufocar

Meu pai tentou encher de fantasia
E enfeitar as coisas que eu via

Mas aqueles anjos agora já se foram
Depois que eu cresci

Da minha infância agora tão distante
Aqueles anjos no tempo eu perdi

Meu pai sentia o que eu sinto agora
Depois que cresci

Agora eu sei o que meu pai
Queria me esconder

Às vezes as mentiras
Também ajudam a viver

Talvez um dia pro meu filho
Eu também tenha que mentir

Pra enfeitar os caminhos
Que ele um dia vai seguir


Ouvindo: Los Hermanos - Traumas

9.3.08

Balada da flor da terra - Vinícius de Moraes



Nem a luz da lua na tarde
Nem a onda do mar quando ela vem
Nem a flor do céu quando se abre
Têm a graça de você

Meu amor
É bonita
É bonita

Ai, que aroma o corpo do meu bem
Ai, que negros são os seus cabelos
Meu bem, não vá mais embora
Não me deixe por favor
Sem meu bem eu me morro
Eu me morro de amor
De amor
De amor

Vem.!?...



Segue comigo, mocinha.
Por este caminho segue, também.
Não pretendo ir sozinho.
Por favor, vem comigo, vem?

Não quero ter medo
Do que tem à frente,
Se o que tem atrás já não vem.
Então, por favor, comigo, segue, também.

O que tem à frente?
Não sei. E você!?
Tu sabe, hein?

Deve ter qualquer coisa.
Mas qualquer coisa em qualquer lugar tem.
Contudo algumas coisas - só algumas coisas -
Lá tem!

Então tu vem comigo?

Então tu vem?

Porém, se se demorar,
Talvez eu vá sozinho
- Não quero.
Assim,
Vem.

Vem.


Ouvindo: Solomon Burke - If you need me

5.3.08


Quando se ama, o ócio, junto à pessoa amada, se torna de todos o ato mais nobre.

2.3.08

Dia triste. Pedido a retrocesso.

Hoje é um dia triste.
Um dia em que o tempo podia voltar
Para um momento em que nada existia:
Nem sentimentos, nem sentidos.
Nem toque, nem o tocado.
Nem pouco. Nem tudo.
Nem Criador, nem criatura.


.
.
.

Pois, se nada ainda não existisse,
Tudo, então, poderia ser criado.

Ouvindo: No Fear/Ai Suru Koto - Maaya Sakamoto